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Distúrbios de Aprendizagem: Uma Rosa com outro nome
Imagine por um instante que você está visitando um viveiro de plantas.
Você percebe uma agitação lá fora e vai investigar. Você encontra um
jovem assistente lutando contra uma roseira. 

Ele está tentado forçar as pétalas da rosa a se abrirem, e resmunga insatisfeito. Você lhe pergunta o quê está fazendo e ele explica: "meu chefe quer que todas
essas rosas floresçam essa semana, então na semana passada eu cortei
todas as precoces e hoje estou abrindo as atrasadas". Você protesta
dizendo que cada rosa floresce a seu tempo, é absurdo tentar retardar
ou apressar isso. Não importa quando a rosa vai desabrochar - uma rosa
sempre desabrocha no momento mais oportuno para ela. Você olha
novamente a rosa e percebe que ela está murchando, mas quando você o
alerta, ele responde: "Ah, isso é mau, ela tem disdesabrochamento
congênito. Vamos ter que chamar um especialista". Você diz: "Não, não!
Foi você quem fez a rosa murchar! Você só precisaria satisfazer as
exigências de água e luz da planta e deixar o resto por conta da
natureza!" Você mal consegue acreditar no que está acontecendo. Por
quê o chefe dele é tão mal informado e tem expectativas tão irreais em
relação às rosas?


Essa cena nunca teria se passado em um viveiro, é claro, mas acontece
todos os dias em nossas escolas. Professores pressionados por seus
chefes seguem calendários oficiais que exigem que todas as crianças
aprendam no mesmo ritmo e do mesmo jeito. No entanto as crianças não
diferem das rosas em seu desenvolvimento: elas nascem com a capacidade
e o desejo de aprender, e aprendem em ritmos diferentes e de modos
diferentes. Se formos capazes de satisfazer suas necessidades,
proporcionar um ambiente seguro e propício e evitar nos intrometer com
dúvidas, ansiedades e calendários arbitrários, aí então - como as
rosas - as crianças irão desabrochar cada uma a seu tempo.
Meu coração gela quando penso nas crianças classificadas como 'ADHD'
(sigla norte-americana para 'distúrbio de hiperatividade e falta de
atenção'), o mais novo tipo de "distúrbio de aprendizagem". Muitos
educadores e pesquisadores acreditam que as crianças e suas famílias
tenham sido cruelmente enganadas por essa classificação. O Dr. Thomas
Armstrong, que já foi especialista em dificuldades de aprendizagem,
mudou de profissão quando começou a ver "como essa noção de distúrbios
de aprendizagem estava prejudicando todas as nossas crianças,
colocando a culpa da dificuldade de aprender em misteriosas
deficiências neurológicas, em vez de apontar para as tão necessárias
reformas em nosso sistema educacional". O Dr. Armstrong voltou-se
então para o conceito de diferenças de aprendizagem e escreveu "In
Their Way" ("Do modo deles"), um guia prático e fascinante para os
sete "estilos pessoais de aprendizagem" inicialmente propostos por
Howard Gardner, psicólogo da Universidade de Harvard. O Dr. Armstrong
nos instiga a abandonar rótulos convenientes mas nocivos tais como
"dislexia" e nos ater ao problema real do "disensino". Ele adverte que
"nossas escolas estão desvalorizando milhões de crianças ao taxá-las
de insuficientes quando na realidade elas estão sendo incapacitadas
por métodos de ensino ruins". Como Armstrong explica, "as crianças são
sobrecarregadas com diagnósticos tais como dislexia, disgrafia,
discalculia e assim por diante, dando a impressão de que sofrem de
doenças muito raras e exóticas. Embora o termo dislexia seja apenas
uma expressão latina para 'dificuldade com palavras', centenas de
testes e programas se propõem a identificar e tratar tais 'disfunções
neurológicas'. Mas os médicos ainda não conseguiram determinar
qualquer tipo de lesão cerebral detectável na maior parte das crianças
com esses assim chamados sintomas. Parece evidente para mim, depois de
quinze anos de pesquisa e prática no campo da educação, que nossas
escolas são as principais culpadas pelo fracasso e pelo tédio
enfrentado por milhões de crianças..."

As classificações de distúrbios de aprendizado seriam "as novas roupas
do imperador" das escolas? Os filósofos têm um recurso interessante
chamado "Navalha de Occam", um expediente prático para liqüidar com
teorias absurdas: "para resolver um problema, deve-se escolher a
teoria mais simples que explique os fatos". Quais são os fatos? É fato
que muitos escolares, principalmente do sexo masculino, têm
dificuldades de aprendizagem. Mas também é fato que existem centenas
de milhares de crianças no mundo, meninos e meninas, entre os quais
esse defeito "genético" está ausente: são as crianças escolarizadas em
casa. Nesse grupo, praticamente não existem dificuldades de
aprendizagem, exceto nas crianças que estão ha pouco tempo na escola.
Se os "distúrbios de aprendizagem" estão presentes apenas no ambiente
escolar e ausentes em outros lugares, o problema deve estar no
ambiente de aprendizado das escolas e não em algum "distúrbio
neurológico" misterioso e não-detectável das crianças, ou estariam
igualmente presentes nas crianças escolarizadas em casa. Afinal não é
segredo que as escolas não estão conseguindo cumprir sua tarefa: em
muitas regiões, os níveis de alfabetização na verdade caíram e não
chegaram a atingir os níveis prévios à existência de escolas públicas
(nos Estados Unidos). Quando John Gatto, eleito Professor do Ano do
Estado de Nova York, chama a escolarização obrigatória de "sentença de
doze anos de prisão", percebemos que algo está muito errado e que o
erro não é das crianças.

Será que as classificações de "hiperatividade", "fobia escolar" e
"dificuldade de aprendizagem" não são uma cortina de fumaça para a
incapacidade da escola de entender e aceitar o verdadeiro processo de
aprendizagem? Uma especialista do porte de Mary Poplin, ex-editora de
uma revista sobre distúrbios de aprendizagem ('Learning Disabilities
Quarterly'), concluiu recentemente que "apesar de toda a pesquisa
quantitativa... não há provas de que os distúrbios de aprendizagem
possam ser identificados objetivamente... as tentativas de se
estabelecer critérios objetivos para avaliar problemas humanos são uma
ilusão que serve para encobrir nossa incompetência pedagógica". O
educador John Holt relata em 'Teach Your Own' ('Ensine a Si Mesmo')
que o presidente de uma importante associação para tratamento de
distúrbios de aprendizagem admitiu que há "poucas provas para
confirmar os diagnósticos de distúrbios de aprendizagem". John Holt
alerta os pais de crianças em idade escolar para serem "extremamente
céticos em relação a qualquer coisa que as escolas e seus
especialistas digam sobre a condição e as necessidades de seus
filhos". Acima de tudo, eles devem compreender que é quase certo que a
própria escola, com todas as suas fontes de tensão e ansiedade, esteja
causando as dificuldades e que o melhor tratamento provavelmente seja
tirar o filho da escola de uma vez por todas.

As famílias que fazem isso ficam aliviadas ao descobrir que seus
filhos recuperam o interesse que tinham pelo aprendizado quando eram
mais novos. Ao contrário dos professores escolares, que têm apenas uma
visão parcial de várias crianças a cada ano, os pais que ensinam em
casa observam o aprendizado de uma única criança ao longo de vários
anos, aprendendo assim a respeitar o estilo singular de aprendizado de
cada filho, a confiar na escala de horários individual da criança e a
reconhecer que os erros são um componente normal e passageiro do
processo de aprendizado de qualquer pessoa. ( Não há pressa, de
qualquer forma: muitas crianças escolarizadas em casa que começaram a
ler aos 10 ou 12 anos saíram-se muito bem na faculdade). Essa atitude
de descontração dos pais que ensinam em casa mantém intacto o valor
próprio da criança, torna as classificações insignificantes e permite
que o aprendizado seja tão fácil quanto entre os pré-escolares:
crianças escolarizadas em casa costumam superar aquelas que freqüentam
a escola em termos de desempenho acadêmico, socialização, confiança e
auto-estima. John Gatto afirma que "em termos de capacidade de pensar,
as crianças escolarizadas em casa parecem estar de cinco a dez anos
adiante daquelas que freqüentam a escola".

Durante alguns anos John Holt desafiou várias escolas a "explicar a
diferença entre uma dificuldade de aprendizagem (que todos nós temos
uma vez ou outra) e um distúrbio de aprendizagem". Ele perguntou aos
professores como eles distinguem entre causas inerentes ao sistema
nervoso do aluno e fatores externos - o ambiente escolar, o modo de
explicar do professor, o professor em si ou o material didático. Ele
relata: "nunca recebi uma resposta coerente a essas perguntas...
[ainda assim] essa distinção é tão fundamental que não sei como
podemos falar de modo construtivo sobre os problemas de aprendizagem
de uma criança sem ela". Mas como os professores têm tanta certeza da
existência tão disseminada de distúrbios neurológicos? Talvez eles
estejam apenas confundindo causa e efeito: como John Holt observa, "os
professores dizem que deve ser difícil ler, ou não haveria tantas
crianças com dificuldade de ler". John Holt argumenta que "as crianças
têm dificudlade de ler porquê partimos do pressuposto de que ler é
difícil... com nossa preocupação, 'simplificação' e pedagogia, tudo o
que conseguimos é tornar a leitura cem vezes mais difícil para a
criança do que deveria ser... quando estamos nervosos ou com medo
temos dificuldade, ou ficamos mesmo impossibilitados, de pensar e até
de perceber... quando amedrontamos as crianças, bloqueamos totalmente
seu aprendizado".

De fato, algumas pesquisas mostram que as expectativas do professor
sobre a capacidade de aprendizado da criança influenciam muito o seu
desempenho acadêmico. Outras pesquisas mostram a relação entre a
ansiedade da criança e sua dificuldade de percepção - e ainda que o
alívio da ansiedade (e o tratamento de alergias alimentares, quando
elas existem) reduz em muito a incidência dessas dificuldades. Mas não
precisamos que especialistas e pesquisadores nos digam o quê está
errado. Precisamos apenas ouvir as próprias crianças, que estão há
anos tentando expressar sua dor, frustração, confusão e raiva. Quando
as crianças se voltam para as drogas, auto-mutilação e suicídio, é
evidente que estão tentando nos comunicar algo muito importante.
Será que as dificuldades de aprendizagem são mesmo uma reação
compreensível de crianças normais obrigadas a conformar-se às
condições anormais das salas de aula convencionais? Em outras
palavras, será que as escolas são incapazes de perceber a diferença
entre simples relatos de erros de aprendizagem passageiros, agravados
pelo estresse, e uma conclusão científica? Embora as supostas
anomalias neurológidas nunca tenham sido identificadas, não é difícil
detectar condições anormais no ambiente escolar: competitividade
feroz, inatividade física (particularmente difícil para os meninos),
matérias fragmentadas que têm pouca relação com os interesses e as
experiências individuais da criança, freqüentes avaliações e
questionamento do progresso do aprendizado, falta de tempo para o
convívio familiar, pouca oportunidade de conhecer pessoas de outras
idades, falta de sossego para a privacidade e a reflexão, pouca
oportunidade de receber a atenção exclusiva dos professores,
desencorajamento a compartilhar idéias e trabalho com os colegas de
classe (uma oportunidade valiosa sendo desperdiçada), crianças
frustradas caçoando das outras, o desencorajamento de atitudes de
auto-valorização e acima de tudo a indignidade de ser um incapaz, uma
"não-pessoa", cujas necessidades legítimas e as tentativas de
expressar essas necessidades são abafadas pela defensiva
institucional. Todas essas dificuldades podem ser evitadas com a
escolarização domiciliar - desde que o governo permita autonomia
suficiente.

Classificações são incapacitantes, porque as crianças acreditam no que
lhes dizemos. Se tivermos que classificar algo, que seja o ambiente de
ensino e não o aluno: em vez de "criança hiperativa", vamos nos
preocupar com as escolas "restritivas de atividade"; em vez de alunos
com "falta de atenção", deveríamos pensar nas aulas com "falta de
inspiração"; em vez de "criança com fobia escolar" deveríamos usar
palavras mais honestas como "ansiosa" e "amedrontada", e tomar mais
cuidado ao pesquisar o motivo da ansiedade. Usando a Navalha de Occam,
vamos procurar a teoria mais simples que explique os fatos e não a
mais complicada e obscura. Um ambiente estressante, punitivo e
ameaçador é mais do que suficiente para explicar os problemas de
aprendizagem. Não precisamos nos confundir com termos técnicos,
teorias sem comprovação científica e bodes expiatórios para preservar
uma instituição social que falhou com nossos filhos.

Como devemos agir então? Norman Henchey, professor da Universidade
MacGill, recomenda "repensar totalmente a escolarização compulsória".
Norman Henchey defende a volta à escolarização em casa e a "outras
vias de amadurecimento... programas de formação de aprendizes,
serviços de ensino formais e informais, servico público". Talvez assim
possamos honrar o estilo individual de aprendizado de cada criança e,
como pede o Dr. Armstrong, "dar às crianças a motivação de que
necessitam para se sentirem seres humanos competentes e
bem-sucedidos". As crianças nasceram para aprencer. Elas merecem ter
um ambiente de ensino seguro e estimulante, onde possam aprender em
uma atmosfera de paciência, respeito, delicadeza e confianca, sem
ameaças, coerção ou cinismo. Como Einstein nos alertou muitos anos
atrás, "é um grave erro acreditar que o prazer de observar e pesquisar
possam ser incutidos pela coerção".
Toda criança é uma criança bem-dotada.

por Jan Hunt, Psicóloga, Diretora do "The Natural Child Project"
http://www.naturalchild.com/


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